Com Amor, Dublin

“Estávamos em 1958. Eu, na época com 15 anos, estudava na Escola Tradicional de New Hampshire. As aulas eram legais, mas o ponto alto da rotina escolar era durante os intervalos. Meus colegas e eu discutíamos sobre política e os últimos acontecimentos da época. Certo dia, entrei num debate frenético sobre o contexto histórico no qual estávamos vivendo. Eu me sentia uma revolucionária, sempre tinha algo a dizer em favor dos desprovidos e explorados, mas meu discurso não convencia meus colegas tradicionalistas. Isso aumentava ainda mais a minha sede de justiça.

Foi em uma dessas discussões que eu o vi pela primeira vez. George Smith tinha 17 anos e defendia com ardor sua linha liberalista. Tinha um discurso forte e coerente e não tardou a chamar minha atenção. Certo dia, o grupo se dispersou e George me convidou para tomar um café na cantina da escola, para que continuássemos a discussão. Era uma segunda-feira chuvosa de agosto. Aceitei prontamente, sob a condição de ele me ensinar como organizava seus argumentos tão rapidamente. Ele reagiu com um largo sorriso. Provavelmente achava engraçada a minha ingenuidade. Não me intimidei, mesmo sentindo calafrios rasos por toda pele ao ver aquele sorriso, e continuamos conversando. A partir dali, tivemos muitos encontros políticos na cantina da escola. George me ensinava os truques de um bom argumentador e indicava livros proibidos para garotas da minha idade. Ele tinha um tio que trabalhava na Biblioteca Central e conseguia os livros para nós. Cada livro trazia uma emoção nova. Eu ficava extasiada com o cheiro de tinta fresca que cada história continha – os livros eram antigos, mas eu alimentava a ilusão de que haviam sido escritos especialmente para nós, há muito pouco tempo, como se um editor qualquer fosse cúmplice em nossa empreitada. George achava graça do contexto conspiratório que eu criara. Ríamos juntos sempre que ele tentava me convencer de um ponto de vista e eu o interceptava usando um dos seus próprios argumentos. Eu estava ficando boa naquilo. Por vezes George me olhava de um jeito orgulhoso, mesmo após uma derrota. Quando estávamos juntos, as tardes passavam tão rápido que a noção de eternidade parecia uma ideia insustentável.

Os dias viraram semanas e rapidamente nos apaixonamos. George, um gentleman, decidiu oferecer um jantar para nossos pais em sua casa, afim de anunciarmos o namoro. Escolhi um de meus melhores vestidos, elegante e discreto, para passar uma ideia sutil de romance maduro. O que nós não sabíamos era que os nossos pais tinham uma certa desavença mal resolvida do passado, o que gerou um clima extremamente desagradável naquela noite. Todos comiam em silêncio. Ouvíamos apenas o tintilar de taças e talheres. Ao tentar introduzir o assunto de nosso namoro, George foi duramente repreendido por seu pai. O jantar parecia ser conduzido por uma espécie de protocolo social forçado, ao qual nem eu, tampouco George, havíamos sido apresentados. Nos despedimos na porta do hall de entrada, trocamos olhares constrangidos e esse foi o fim da noite que, bem sabíamos, não havia acabado bem.

No dia seguinte, durante o café da manhã, o clima em casa estava estranho. A cozinha estava quieta. Havia uma nota de pesar no ar. Foi meu pai quem deu fim ao silêncio. “Esse namoro não pode continuar. Você não irá para a escola hoje e amanhã cuidaremos de sua transferência para outro lugar. Não se preocupe, estamos pensando no que é melhor para você“. As palavras de meu pai não estavam muito claras para mim, vinham acompanhadas de um zumbido constante e alto. Muito alto. Demorei para entender que tal zumbido era, na verdade, o meu corpo sendo tomado por uma tontura incontrolável. O que fizeram com o ar? Nos romances que contemplavam a descrição de uma asfixia, não me recordo das palavras “dor” e “desespero” em tamanha escala. Perguntei ao meu pai o que havia acontecido, mas ele fez um movimento tirano com as mãos indicando que o assunto não estava aberto a discussões. Olhei para a minha mãe, suplicando por socorro, mas ela apenas baixou a cabeça, indicando consentimento. Amargurei por algum tempo a decisão de meus pais, me rebelei sem garantia de qualquer retorno em meu favor, escrevi várias cartas para George, mas nunca tivera uma resposta. O tempo acabou vencendo meus esforços e o ardor em meu peito diminuíra consideravelmente. A nova escola não era ruim, de fato, porém, eu sentia falta das discussões políticas com os colegas e de outras coisas que já não importavam mais.

Passaram-se alguns anos e, ao ingressar na faculdade, conheci meu marido Peter. Tivemos um casamento longo e feliz. Foram 40 anos juntos! Mas infelizmente fiquei viúva há quase três. Peter me deixou dois filhos, que me deram uma neta graciosa chamada Anna, e é por causa dela que estou aqui hoje. Anna trabalha nessas empresas de tecnologia e, certo dia, descobriu onde estava George. Conversando com ele, descobriu que ele ficara viúvo há muitos anos, que não tinha filhos e lecionava História Moderna em universidades. Anna nos colocou em contato outro dia e conversamos ao telefone. Fiquei surpresa ao descobrir que ele ainda se lembrava de mim, de nós. Foi então que decidimos nos ver pessoalmente. Bem, aqui estou e ele deve entrar por aquela porta a qualquer momento“.

Havia apenas uma porta na cafeteria e ela funcionava com um daqueles sensores de presença. Engraçado pensar que a porta se abrirá para George Smith como se abriria para qualquer pessoa. Só que o Sr. Smith que entraria aqui era o da história de amor Shakespeariana que eu acabava de escutar. Teria a porta um identificador de emoções que a faria se abrir de um jeito diferente para ele? Tipo, com luz e vento direcionados para os cabelos de ambos e música de fundo? Não né, objetos não entendem contexto, Luana!

Percebi meu devaneio me conduzindo para longe de nossa conversa e voltei minha atenção rapidamente para a Sra. Thompson.

– Uau! A sua história é uma das coisas mais incríveis que já ouvi na vida! Confesso que estou nervosa aqui. Obrigada por dividir isso comigo, Sra. Thompson.

– Pode me chamar de Marie.

Ambas sorrimos alegremente.

– Obrigada por ouvir, minha querida. Os jovens de hoje não têm paciência para esse tipo de assunto. Acho que não conhecem esse tipo de história.

– A gente não vive mais esses romances. Não dá tempo, sabe?

– Vocês jovens têm uma ideia engraçada de tempo. Acham que ele diminuiu, mas ele continua lá: uma hora tem sessenta minutos, um dia tem vinte e quatro horas e assim por diante. O que mudou, afinal?

Uma moça de estatura média, cabelos escuros e óculos de armação colorida entrou na cafeteria. Era minha amiga de viagem que acabava de chegar. Pontual como sempre, acabava de me fazer perder a chance de presenciar o grande reencontro de Romeu e Julieta contemporâneos, em carne e osso, ali na minha frente.

 – O que mudou, afinal? – insistiu a Sra. Thompson, ao perceber que me distraí.

– Priorizamos outras coisas hoje em dia, eu acho…

Ela sorriu docemente, concordando.

– Olha só, eu preciso ir, a minha amiga chegou e…foi um prazer conhecê-la, Marie. Tomara que valha a pena. Tudo o que aconteceu no passado, digo. Tomara que o que acontecer hoje faça tudo valer a pena.

– Olhe bem para mim, mocinha. Que tal? Pareço real ou pareço um fantasma para você?

– Hã…parece bastante viva para mim, eu diria… – respondi meio confusa.

– Então, presumo que já tenha valido a pena.

Talvez sem querer, a Sra. Thompson tenha jogado, doce e ferozmente, a verdade bem na minha cara.

Demos um caloroso abraço de despedida e fui encontrar minha amiga que aguardava um café. Folheei o mapa para traçar o próximo destino. Era dia de visitar castelos. Com mapa e café na mão, seguimos para a porta. Antes de cruza-la, olhei para trás procurando a Sra. Thompson mais uma vez, havia um homem sentado a sua frente. Era ele! Só podia ser ele!

O semblante da Sra. Thompson era sereno, tinha uma coloração rosada e divertida nas bochechas. Aposto que aquele olhar era novo. Tinha um brilho especial que não parecia ter existido noutro tempo.

Ali, bem na minha frente, naquela cafeteria cheia de turistas, mapas, senhas de Wi-Fi e cafés expressos, a Sra. Thompson e o Sr. Smith reviviam um dos romances mais famosos de Shakespeare. Esqueci-me dos castelos por um instante, parada à porta, testemunhava toda a candura que aquele momento proporcionava.

Quando me convidou para uma xícara de café, a Sra. Thompson falou que eu parecia sozinha em meio a multidão. Disse que “vislumbrou” um olhar vazio em meu rosto. Talvez ela estivesse certa ou talvez fosse apenas tédio, mas suas palavras me puseram a pensar. Às vezes, há mais nobreza na gentileza de um estranho do que podemos imaginar. Acho que visitamos uns quatro castelos naquele dia, eles eram lindos, porém aquela cafeteria se tornaria um lugar único em toda Dublin. Para a Sra. Thompson e para mim. Ela nativa, eu estrangeira.

4 thoughts on “Com Amor, Dublin

  1. Uma história sensacional com um texto que flui leve e harmonioso. Você transmitiu muita emoção nesta história. Já espero pela próxima parada! Parabéns Lu. Beijos

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