Sobre Amizade, Seus Contextos e Percalços

Era uma vez, três amigas que se conheciam desde a infância e…. Hã, espera um pouco, essa história não começou assim, então, vamos contá-la direito.

Apesar dos mitos acerca dos componentes de uma amizade, tais como catástrofes, conflitos, intrigas e amores platônicos, ouso dizer que uma amizade real é composta, ou pelo menos deveria ser, por momentos de tédio, frustração, consentimento e, claro, incontáveis porções de afeto.

Esta escritora/redatora que vos fala (sorriso largo, sotaque arretado e boina preta aí em cima na foto), nasceu na ensolarada Aracaju e se mudou em 2007 para São Paulo. Até hoje não sei exatamente o que me motivou a mudar, mas, lembro que tinha alguma coisa a ver com sair para descobrir o mundo e outras coisas.

A moça à minha direita chama-se Paula Porto (famosa por suas caretas espontâneas em fotos, rosto meigo e personalidade marcante), ela é fortaleza e candura, esplendor e simplicidade. Ela contempla a vida com a mesma intensidade com a qual reprime a mão do opressor social, ela é política e filosofia recente, acredita profundamente na vida e nas pessoas, ela sabe que a vida é mutável e que somos irremediavelmente humanos. Paula é única e plural.

A moça à minha esquerda é a Adriana Brito (conhecida por sua seriedade engraçada, habilidades linguísticas discursivas – nunca entre numa discussão com ela desprovido de argumentos sólidos – e seu afago materno exclusivo para melhores amigas), ela é serenidade e equilíbrio, força e maturidade. Não se inquieta com os pormenores da vida porque é conhecedora de seus valores, sua integridade espanta na mesma proporção em que ensina. Adriana é dádiva e constante.

Nos conhecemos naquele ano e, entre rotinas e desencontros, ficamos amigas. Compartilhávamos alguns sonhos em comum e, naquela época, vivíamos mais ou menos as mesmas coisas, a amizade era uma ideia fácil de conceber e de manter também, afinal, não há nada mais implacável do que a rotina para criar afeição entre estranhos através do convívio. Somos uma espécie carente de contato social.

Assim, como em toda amizade sólida, amadurecemos e atravessamos momentos de dor, de compaixão, de silêncio e de companheirismo. Proferimos insultos no ápice de nossa vaidade durante uma viagem pelo litoral paulista (que tinha tudo para ser perfeita) e, que no final, foi. Gargalhamos infinitamente quando a minha calça do trabalho rasgou durante a simulação de um exercício (não há fotos desse evento, lamento). Nos irritamos profundamente quando, numa madrugada fria, nossos lanches queimaram dentro de uma sanduicheira ardilosa (deve ter uma foto disso em algum HD velho). Desejamos arduamente, muitas vezes, trocar de lugar para suportar a dor da outra. Entregamos nossos corações, incondicionalmente, para salvar um Natal solitário e quase trágico envolvendo um avião e um caminhão em chamas (essa história é muito louca, mas não tem nada a ver com o clima criado aqui no post, então, ficará guardada para uma futura categoria de aventuras).

Enfim, alguns anos se passaram e, assim como a vida, nossos caminhos seguiram no fluxo de nossas escolhas. A Paula foi morar nos Estados Unidos, a Adriana morava em Campinas e eu estava em São Paulo. Os eventos factuais da vida nunca pararam de acontecer, fomos acometidas por uma síndrome de abstinência do cotidiano e resolvemos cumprir uma promessa antiga: fazer uma viagem internacional juntas. Escolhemos San Francisco, na Califórnia, a Paula chegou primeiro na cidade, eu perdi uns quatro voos em L.A. tentando chegar, enquanto a Adriana tentava embarcar de Atlanta (acho que não mencionei que trabalhávamos em empresa aérea né? Então vem comigo: bilhete de funcionário + voos lotados + época de férias? Ok!).

Acabei chegando algumas horas depois da Paula, fomos para o hotel e iniciamos a operação “Embarquem a Adriana, por favor! ”. Dois dias depois, entre barrinhas de cereal, sites de empresas aéreas e soluções impossíveis, a Adriana chegou e, finalmente, fizemos a viagem tão planejada e sonhada. Obviamente, regada a muito café, pipoca de cheddar branco com cerveja e sapatos confortáveis.

Histórias paralelas foram escritas ao longo desse tempo em que vivemos longe umas das outras. A Paula voltou da gringa, toda fluente e viajada, a Adriana casou com um gentleman dos contos de fadas (tipo príncipe encantado) e eu acabei de me formar publicitária. Assim como a vida, nossos caminhos ainda seguem no fluxo de nossas escolhas e, talvez, elas nos conduzam para caminhos diversos. A diferença é que, todas as vezes que um evento qualquer da vida ou do cotidiano nos surpreendeu, nós decidimos ficar. Quando houveram erros ou acertos, nós decidimos ficar. Quando o melhor ou o pior emergiu de dentro da gente, nós decidimos ficar. Quando houve escolha e oportunidade, nós decidimos ficar. Quando desacreditamos nas promessas de amizade eterna que fizemos umas as outras, ainda assim, nós decidimos ficar.

Na foto acima, estamos na Golden Gate Bridge, um dos cartões postais mais famosos do mundo. Estávamos a caminho de Sausalito, uma cidadezinha na área da Baía de San Francisco, o simpático motorista da van se oferece para tirar a foto oficial, pergunta qual é a ocasião da viagem, nos entreolhamos e sacramentamos: somos melhores amigas e essa é a viagem de nossas vidas!

 

 

 

 

3 thoughts on “Sobre Amizade, Seus Contextos e Percalços

  1. Pingback: Uma Road Trip No Caminho – Cada Aventura Uma Viagem

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