Deux croissants e uma xícara de amor, s’il vous plaît.

Acordo cedo porque aprecio o cheiro da manhã. E também porque a atmosfera matinal exerce forte ação regeneradora sobre mal-estares de qualquer natureza. Gosto de olhar a rua despertando junto com o Sol. A diferença de fuso horário sempre prorroga minha letargia. Abro a cortina para acompanhar o início do dia. Uma mulher de cachecol volumoso caminha a largos passos do outro lado da rua, a luz do sol a alcança por uma fresta fininha que se revela a cada cinco ou seis passos, o casaco, de um caramelo apagado, contrasta com o vermelho exuberante da boina, compondo aquele ar parisiense de que tanto se ouve falar. Os longos cabelos castanhos ganham vida graças a corrente de ar que corre por entre os prédios. Pergunto-me se ela faz aquele caminho todas as manhãs ou se o escolheu especificamente hoje. Deve ser majestoso morar em Paris.

– Já está acordada?! – Era Helena com seu mau humor matinal corriqueiro. – Você dormiu quantas horas? Quatro? Como consegue?!

– Bom dia para você também. Estou com fome.

– Estou meio zonza ainda.

– Vou buscar café da manhã numa Boulanger Patissier aqui pertinho. Ei, ontem a noite, você realmente virou aqueles três martínis de uma vez?

– Argh! Quero vomitar!! – Reclama ela. – Vai logo buscar o café.

– Estou indo. Ah, ouvi maravilhas sobre Versailles. Levaremos o dia inteiro para conhecer todo o castelo. Então, vê se toma um banho e põe um pouco de ânimo nessa cara, hein?

– Não farei promessas. – Debruça-se sobre a cama bagunçada.

A porta do quarto dá acesso a um longo corredor cujo hall possui três elevadores. Doze andares de turistas frenéticos e uma porção de gente fazendo negócios me separam do hall principal. A decoração contemporânea no interior do hotel logo revela uma Paris antiga, de paredes amareladas e arquitetura medieval. Atravesso a porta automática e sinto ter viajado no tempo. Um vento gélido entra por uma fenda no meu casaco, minha pele, ainda morna, treme inteira. Encolho-me, cruzando os braços, em vão.

A Boulanger Patissier é uma dessas padarias charmosas e típicas que tem por toda Paris, que te enchem de vontade de sentar ao ar livre e saborear um café fresco, acompanhado de macarrons e carolinas. Haviam algumas pessoas conversando em frente ao balcão quando entrei. Procurei alguém para fazer meu pedido. Do lado de fora, em uma das mesas, um jovem casal discute ferozmente. A moça magra de cabelos pretos usava um sobretudo vermelho, tinha uma expressão irritadiça e mãos nervosas. O rapaz era alto e carregava um sorriso amarelo, de quem estava a pedir desculpas por algum tempo. Ele faz gestos amplos e contínuos com as mãos. A moça, aparentemente inconformada, o acompanha com os olhos. Ela ergue a mão e aponta-lhe o dedo indicador. Parece proferir palavras duras. O moço sempre baixa a cabeça em conformidade. Voltei meus olhos para o balcão para fazer o meu pedido. Todos, de dentro da padaria, assistiam à briga.

– Ele tem que colocar essa moça no lugar dela! Onde já se viu gritar com um homem, desse jeito, no meio da rua? – Bufava um senhorzinho que estava bem ao meu lado, o corpo encurvado acompanhava o formato do balcão.

– Por que você não se põe no seu lugar? – Brada a senhora de uma das mesas no final do corredor.

– Ninguém falou com a senhora. Portanto, ponha-se no seu lugar também! – Num salto, olhei para o senhorzinho, meio atônita. Ele devolveu um olhar bravo que fez meu coração acelerar. – Que foi? – Grita. Não reajo.

– Vou tirá-lo daqui agora se falar com ela desse jeito novamente. – Era um rapaz jovem, corpulento e usava óculos de armação vermelha.

– Vai ter que trocar esses óculos se quiser que alguém lhe dê algum credito, rapaz!

Dou um passo para trás.

– O senhor não passa de um troglodita! – A senhorinha aproxima-se do balcão. Estremeço, pois minha pressão cai quando sinto alguma briga a caminho.

 – Tudo isso é uma perda de tempo. Acham mesmo é da nossa conta o que está acontecendo lá fora? – Um rapaz, de nariz adunco e expressão séria, sentado no final do corredor, se pronuncia. Ele vestia um sobretudo bege com fotos coloridas, costuradas em patchwork, por toda a roupa, conferindo alegria e estilo à peça.

– Ora, ora, temos então um falso moralista, vestido em trajes duvidosos, entre nós. “ – Agora, o senhorzinho está ereto, expressão carrancuda, em posição de luta.

O barulho ficara ensurdecedor dentro da padaria, as vozes se misturavam e não era possível entender mais nada. Aparentemente, um monte de gente, cheia de razão, tentava defender seu ponto de vista. Voltei meus olhos para os causadores da confusão e fui atingida, docemente, por uma encenação romântica antiga.

Eles trocam palavras brandas, seus movimentos são suaves e cautelosos. A moça tem um olhar doce. Ele sorri com o canto da boca. Aproxima-se dela devagar. Ela recua, mas mantém o olhar. Ele alcança o rosto da moça com uma das mãos. Ela está parada, afaga a mão estendida com um lado da face. Ele a envolve com o braço livre, aproximando-a. Ela sorri também. Os lábios aproximam-se lentamente. O beijo encerra o ritual, portanto, hesitam. Os olhos ensaiam um diálogo curto. Hesitam por breves segundos. A sensação que antecede o beijo precisa ser imortalizada, mas sua humanidade os derrota. Entregam-se.

Madame, o que vai querer? – Uma simpática moça, atrás do balcão, me resgata do torpor.

– Dois croissants e uma xícara de amor… de café, por favor. Sorrimos.

Há uma bucólica curiosidade acerca da vida alheia, mas trata-se de curiosidade delirante, não nos diz respeito. Dessas que preenchem uma mente ociosa que vaga pelo cotidiano. As vozes coesas, dentro da padaria, agora navegam noutra discussão. Não estou completamente segura, mas tem algo a ver com ações liberais praticadas pelo congressista não importam quem em algum lugar do Pacífico.

No caminho de volta para o hotel, croissants e carolinas ainda quentinhos. Com a fumaça dançante do café a invadir-me os pulmões, observo estranhos na rua vivendo trivialidades. Pergunto-me se, em algum momento, protagonizei o cotidiano de alguém. Há incomensurável beleza, no Castelo de Versailles e em outras coisas simplórias da vida, para se desbravar.

 

One thought on “Deux croissants e uma xícara de amor, s’il vous plaît.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.