Aquela noite em Berlim…

A curiosidade sempre moveu a vida de Roberto, ajudou-o a construir uma brilhante carreira como biólogo, mas, rendeu-lhe uma dura desilusão quando adolescente. Fora criado pela mãe, não tinha irmãos e jamais soubera, com detalhes, de seu passado. Sempre que tentava descobrir algo sobre o pai, Dona Olga o desencorajava alegando que o pai nunca o havia procurado. Roberto cresceu e a vontade de conhecer seu pai não o abandonara. Por volta dos dezesseis anos, começou a investigar dentro de casa, acabou descobrindo um endereço numa das correspondências trocadas entre seus pais. O lugar ficava numa cidade perto dali, Roberto pegou carona com um amigo da escola e foi até lá. Era um bairro tranquilo, a ausência de muros dava ares de vizinhança de classe média alta. Bateu na porta, um homem corpulento e de cabelos ralos o atendeu.

– Pois não? – Ele era alto, muito alto.

– Pedro? Você se chama Pedro, certo?

Pedro, onde estão as suas malas? Estamos atrasados! – Grita uma voz abafada de mulher vinda de dentro da casa.

Papai, papai! O Big Bear pode ir com a gente? – Era um garoto de uns quatro anos, agarrou-se à calça do homem enquanto falava.

– Claro que pode, filho. – Respondeu-lhe com afagos rasos na cabeça.

Voltou-se para Roberto, que permanecia atônito à porta.

– Sim, em que posso ajudar?

– Eu sou Roberto e… – Hesitou, a secura na boca amarrava as palavras. – Sou filho da Olga e seu filho também.

Pedro, quem é? – A voz da mulher agora estava mais perto.

– É um vendedor de anúncios, querida. Termine de preparar as coisas que eu já subo.

O homem voltou-se para Roberto, sua expressão inerte era constante.

– Eu depositei o cheque desse mês. Olga me confirmou dias atrás. Não entendo porque está aqui. Enfim, se me der licença, eu preciso ir. Tenha um bom dia.

Roberto, mergulhado em expectativas, não esperava o golpe. Na verdade, ele jamais havia sentido golpe algum, quiçá, um de natureza tão violenta. Observou a porta fechar em câmera lenta, ficou ali um tempo. Durante toda a sua vida, idealizou esse encontro de várias formas, mas não desta. Não tão cruel e gratuito. Roberto guardou dentro de si aquele momento e a ferida que se abrira, alimentando um rancor profundo que o acompanharia, como um espectro, durante os anos que se seguiriam. Dedicou-se com afinco à carreira, criou relações importantes dentro e fora do país, mas, definhava em suas relações sociais, pois carregava, no sangue, a covardia e a truculência de seu pai.

Anos mais tarde, em meados de fevereiro de um ano qualquer, Roberto viajou para a Alemanha a trabalho. Ele e os demais colegas ficaram em Berlim por uma semana, em meio a conferências e palestras intermináveis. Na penúltima noite na cidade, Clayton – um de seus colegas de profissão – descobriu que haveria um baile de máscaras em um bar famoso da cidade. Roberto, como era mais reservado, relutava em ir, sempre inutilmente, pois seus amigos dispunham de bons argumentos para convencê-lo.

O salão central era enorme, devia haver mais de cem pessoas lá dentro, todos conversavam animadamente. Enquanto passava o longo corredor, Roberto escutava um grupo falando em inglês. Noutro canto, um casal discutia em alemão, pareciam nervosos, mas considerando o tom naturalmente abrasivo do idioma, ele não se abalou. Havia uma confraria de senhoras conversando num idioma indecifrável num dos corredores à esquerda, silenciaram quando Roberto passou, o que fez com que ele acelerasse os passos. Alcançou, aliviado, o balcão.

– Scotch puro.

Entre shots de whisky e conversas aleatórias sobre geopolítica e capitalização de recursos para uma causa qualquer, a noite passou rapidamente. Roberto e os demais seguiram para o hotel por volta das quatro da manhã. Conseguiram dormir por algumas horas porque o inverno europeu sempre adia a saída do sol.

 

“O que você fez daquilo que te fizeram, estranho? 18h00. Beijos, Gigi”.

 

Roberto encara o guardanapo amassado, espera alguns segundos até as palavras ficarem nítidas no papel. Percorre, com os dedos, a mancha escura de batom no canto inferior do bilhete. Leva-o ao nariz, tem cheiro doce que lembra cereja, talvez amora, ele não sabe, tamanha é a sua dificuldade em identificar aromas criados pelo universo feminino. “Estranho…o que é estranho? Eu sou estranho? “ – levanta da cama num salto, é acometido por uma forte dor de cabeça. “Malditos canapés, nunca mais os como. “ – reclama caminhando na direção do banheiro.

Refeito de seu súbito mal-estar estomacal, Roberto cumpre os últimos compromissos da viagem. Sua curiosidade o atormenta durante todo o dia, quer saber quem é a dona do bilhete. E que pergunta mais fora de propósito era aquela? O que ele teria conversado com a tal Gigi? Embriagou-se a tal ponto, que suas lembranças da noite anterior vagavam, em fragmentos soltos, dentro da sua cabeça. Decidiu voltar àquele bar no horário combinado.

O grande salão, que estava lotado na noite anterior, se passaria facilmente por um casarão abandonado senão fosse pela decoração alegre e algumas pessoas que circulavam pelo local, bebendo em lugares dispersos. Uma jovem, atrás do balcão, separa as garrafas de bebida, uma a uma, e anota cuidadosamente num pequeno caderno. Roberto se aproxima.

– Um scotch sem gelo.

Os olhos expressivos da moça o penetram, Roberto sente a face queimar.

– Claro. – Ela responde.

A atendente dá as costas, prepara a bebida e lhe entrega. Roberto dá um gole único.

17h55. Ele checa, ansioso, o relógio. Ensaia o que vai dizer, pensa que é apropriado pedir desculpas por ter bebido em demasia noite passada, mas está intrigado demais com a indagação no guardanapo “O que você fez daquilo que te fizeram, estranho? “. Por que ela o chamaria de estranho? E que tipo de conversa teriam tido para que ela o abordasse com tal pergunta? Roberto não gosta de falar de si, preserva-se numa redoma de vidro que somente ele acredita ser inquebrável. Teme ter falado além do que devia. Flerta com o relógio. 18h10.

– Está esperando alguém? – É a voz cantante da moça que o atendeu. Não quer ser indelicado, pois ela é uma ponte importante entre ele e os drinks daquele recinto.

– Estou. Você não viu nenhuma mulher chegando sozinha por aqui?

– Difícil dizer. Como ela é?

– Difícil responder, eu não me lembro.

– Está esperando alguém que não conhece?

– Não, não! Nós nos conhecemos sim, mas, ela estava usando uma dessas máscaras da festa de ontem e eu não pude ver seu rosto descoberto.

– Então, trata-se de uma mulher misteriosa? – Importuna ela.

– Não, trata-se de alguém com quem eu preciso muito me encontrar.

– Precisa muito? – Ela ri com o canto da boca, obstinada.

– Preciso muito…de mais um scotch puro. – Responde ele, devolvendo a provocação.

Há dois homens numa mesa no centro do salão, eles cantarolam qualquer coisa. O relógio acusa 18h14. Roberto está impaciente, finaliza seu drink.

– Parece que o seu encontro não vem. – Era ela, atrevida, mais uma vez.

– E você parece bastante interessada nisso.

– Eu só estou curiosa. O que faz alguém vir num encontro com uma pessoa cujo rosto sequer se lembra?

– Procure pela palavra afinidade no Google e um dia, quem sabe, nos discutamos suas impressões a respeito. – Retruca ele, sentindo-se invadido. Arranca o casaco estendido no braço da cadeira. Põe algumas notas no balcão e vira-se a caminho da saída.

– Sartre. – A moça grita.

– O quê? – Roberto vira, confuso.

– A pergunta no guardanapo vem de uma frase de um filósofo francês chamado Sartre.

Eu sei quem Sartre é. – Retruca ele, impaciente. – Guardanapo? Você disse guardana… Como você sabia do guardan…? Ela o interrompe.

– Ele disse que “Não importa o que fizeram com você, o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram de você. “. O que aconteceu no passado entre você e o seu pai não vai mudar, você não tem controle algum sobre isso, no entanto, as suas emoções fazem de você somente aquilo que você permite. Então…o que vai ser, estranho? – . Ela sorri, largamente.

Roberto já viu aquele sorriso. Reconhece o formato angelical daquela boca que estava a projetar verdades insípidas em sua direção. Tão intrigante e tão real: Gigi! Roberto dá um suspiro profundo. Recompõe-se, desajeitado.

– Você pode achar isso um pouco estranho, mas, aceitaria jantar comigo depois?

Eles riem. Cúmplices.

– Achei que não perguntaria.

 

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