Uma Road Trip No Caminho

Defendo ferozmente que todo ser humano – disposto a navegar nos mares profundos do autoconhecimento – deve realizar uma viagem solo, independentemente de qualquer modismo, trata-se de um ato de respeito para consigo mesmo, pois quando nos escolhemos como companhia, flertamos com o eu. Uma road trip é uma viagem pela estrada em tradução livre do inglês, pode soar selvagem e forte, mas há nuances sutis nesse tipo de aventura que anseio compartilhar. Nessa viagem, eu não estava só o tempo todo, mas descobri que o estava em alguns momentos.

Toda viagem carrega um propósito e toda aventura traz uma recompensa. Arriscar-se é viver, demasiadamente ou não, a dosagem dependerá do quanto cada um está disposto a entregar. Esperamos que uma viagem nos traga o fechamento de bons negócios, a conclusão de um curso importante ou o encontro com alguém especial, o que as vezes passa despercebido são as nuances suaves impressas em nós quando vivemos esses momentos. O ano era 2015 e minha amiga e eu estávamos em San Francisco, na Califórnia, há mais ou menos cinco dias quando decidimos dirigir pela Costa do Pacífico, os minutos que antecedem a partida fazem parte de um ritual importante da viagem: a expectativa em ebulição frente ao desconhecido.

Alugamos o que se pode chamar de – segundo a minha amiga – um carrão e eu, que entendo tanto de carros quanto…sei lá (pensem em alguém que não entende absolutamente nada sobre carros e façam as devidas comparações), fiquei refém dos argumentos dela. Pegamos um mustang preto e iniciamos viagem, atravessamos a majestosa Golden Gate Bridge como crianças inquietas, dessas que organizam festas da pesada enquanto os pais estão fora da cidade. A ponte, que liga San Francisco à Sausalito, é tristemente conhecida como cenário de tentativas de suicídio e possui uma estrutura de ferro em toda a sua extensão, foi assim que ouvimos durante uma excursão de ônibus até a charmosa cidadezinha californiana. Pensei com entusiasmo sobre isso enquanto atravessávamos a ponte – não por desrespeito ou humor negro, longe disso – mas, porque  a cada visita, todos ali escreviam uma nova história, muitos lugares são amaldiçoados por tragédias do passado, no entanto, se dermos um novo sentido a eles, acabaremos por quebrar essas maldições, basta olhar sob uma perspectiva diferente daquela que nos foi apresentada.

Quando passamos pelo farol de Pigeon Point Lighthouse, o sol estava a meio céu, raios alaranjados penetravam as ondas mansas que vinham cumprimentar os pés descalços na areia, pedras pequeninas faziam cócegas embaixo do pé resgatando memórias de uma infância divertida, mainha sempre me disse que é mais seguro ficar na areia enquanto ela fizer cócegas, de modo que eu – criança destemida – fosse desencorajada a avançar para um mar que não “desse pé”. Acho que ela jamais imaginara que me acompanharia, de certo modo, a Califórnia numa viagem de carro, seus cuidados permeiam minha memória até hoje num aconchego interminável.

Entardecia quando passamos por Pescadero State Beach, havia um desfiladeiro enorme do ponto onde estávamos, pedras rochosas ao longe avançavam mar adentro, o Pacífico se apresentava modesto e bucólico, a flora costeira dançava em relevos com tamanhos variados, debrucei-me sobre o capô do carro para refletir e fui banhada por um céu branco de nuvens densas que se insinuavam na frente do sol, numa festa de tons que me inebriavam. Atrás de mim, a estrada estava silenciosa e o mar, esse protagonista de paisagens, dançava cores para os meus olhos. Entendi que contemplar o novo é revigorante se permitirmo-nos nos reconstruir a cada olhar.

Naquela noite, dormimos em um desses motéis de beira de estrada em Santa Cruz, uma típica cidade americana de filmes de sessão da tarde, você pode se hospedar num lugar barato, comer comida enlatada e assistir Saturday Night Live antes de dormir, tudo isso regado a bastante cerveja e pipoca de cheddar branco. Aviso importante: se você é fã do Stephen King e se impressiona facilmente com suas narrativas, acho imprescindível checar todos os armários do quarto, inclusive embaixo da cama, ok?

Já em Monterey, uma cidade cheia de alegria, onde as famílias vão a sorveteria juntos, é possível andar a pé ou de bicicleta por uma extensa orla que fica em Pacific Grove, uma cidade costeira dentro do Condado de Monterey – sim, eu disse condado, essa mistura de títulos medievais com cidade praiana também vai conquistar você, acredite. Após uma visita breve, dirigimos pela Highway 101 sentido 17-Mile Drive, estrada famosa que liga Monterey à Carmel By The Sea, passeamos por toda Spanish Bay Beach e visitamos o Lone Cypress – provavelmente a árvore solitária mais fotografada do mundo –, foi quando decidimos ficar um tempo na praia contemplando o sol, que se escondera em meio as nuvens e o céu que reluzia um cinza cheio de cor, sempre achei pores-do-sol fidedignos por sua recorrência em derreter corações impermeáveis. Estávamos no meio da viagem e inúmeras recordações já se amontoavam em meu coração.

Paulo Coelho nos ensina em O Aleph que “nossa vida é uma constante viagem, do nascimento à morte. A paisagem muda, as pessoas… mas o trem segue adiante. A vida é o tremnão a estação. “. Descobri que abrandar essa ansiedade pela chegada nos permite aproveitar melhor o caminho, somos indivíduos vivendo um mundo onde a ideia de coletivo não se sustenta porque nos isolamos numa busca desenfreada pela autenticidade, tememos tanto ser equiparados em nossa individualidade que negligenciamos a ideia de que viemos do mesmo lugar e que para lá retornaremos. Queremos conter o todo, mas o todo não pode nos conter sob o pretexto de parecer trivial. Desejamos experimentar o único, mas rejeitamos o desafio de nos entregar ao desconhecido, seja escolhendo um prato diferente no cardápio ou alterando a rota do caminho que fazemos todos os dias do trabalho para casa.

Viajar nos tira do lugar comum, desse conforto sufocante de nossos lares, evoluímos a medida em que somos desafiados. Essa mudança é dolorosa, porém recompensadora. A vida é efêmera e intensa como as emoções, um caminho sem volta onde nos descobrimos senhores de nossas escolhas e condutores de nós mesmos.

Na foto acima, contemplo o Pacífico (de dentro da 17–Mile Drive), estou embriagada por sua imensidão, mas, me distraio ao vislumbrar uma criança correndo em minha direção com expressão de travessura, as mãos segurando firmemente algo que parece ser muito frágil e valioso. Seria uma estrela-do-mar? Uma concha? Ou um punhado daquilo que chamamos de vida?

 

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