Contos de Ponte Aérea: Leia com Moderação.

Andrew dirigia nervoso e, sem se dar conta do perigo, costurava entre os carros para fazer, em dez minutos, um percurso que normalmente levaria vinte. Insisti com ele que era importante chegar, contanto que estivesse viva o suficiente para pegar meu voo de volta para o Brasil. Ele encostou o carro na primeira vaga que encontrou, saltei do veículo ainda em movimento enquanto ele pegava a minha mala, corri saguão adentro e alcancei o balcão de atendimento.

– Passaporte, por favor. – Solicitou a atendente da companhia aérea.

            Ufa! Enquanto tentava recuperar o fôlego, Andrew se aproximava carregando a mala, dono de um andar elegante, característica marcante de todos os ingleses que já conheci na vida, notei o quão bem ele ficara em seu novo suéter, presente de despedida que escolhi com afinco, dada à maravilhosa estadia que ele oferecera. Andrew era um bom anfitrião, sua tez bronzeada, graças aos anos de surf em Bondi Beach, casava bem com a cor de seus olhos dando-lhe um ar encantador, os anos de trabalho na mesma empresa nos aproximaram e quando surgiu a oportunidade de ir até a Austrália visita-lo, não hesitei. Foram vinte e cinco dias de diversão e muita praia, voltaríamos a nos ver muito em breve pois havia um projeto inacabado em São Paulo que estava aos cuidados dele. Embrenhada em meus pensamentos, tive a nítida sensação de estar sendo observada, virei a minha esquerda e havia um homem jovem, dono de belos olhos amendoados. Ele sorriu. Pensei no meu cabelo bagunçado e na cara de louca que devo ter feito, mas estava refém do acaso. Esbocei um sorriso torto.

            Há sempre uma fila de pessoas dentro do avião tentando fazer suas malas de mão caberem no compartimento acima dos assentos, os comissários até tentam, no entanto, entendo a complexidade de ajudar aqueles que possuem quatro malas de mão ao invés de uma, a conta simplesmente não fecha. Na minha frente, duas pessoas discutiam sobre seus assentos repetidos, um deles chamou um comissário fazendo um ruído com os lábios que parecia um dialeto, imaginei que o comissário não o atenderia, mas ele estava a caminho, devia ser um dialeto, portanto. Caminho livre, segui para o meu assento lá no fundo, ao meu lado, uma mulher gorda com bochechas rosadas tricotava uma blusa vermelha e na janela uma criança brincava com seu tablet. Acomodei minha mala e sentei, abaixei para pegar um livro na bolsa embaixo do banco a minha frente, tive dificuldade para achar meus óculos, pois sempre esqueço de coloca-los na caixinha apropriada. Ergui-me e, num susto, lá estava o sorridente sedutor, é bastante provável que eu tenha paralisado por uns três segundos, não reajo bem a surpresas, enfim, tomei o livro nas mãos e encaixei os óculos no rosto.

Portas fechadas, estávamos prontos para decolar, informou a comissária. Há uma informação sobre pousos e decolagens que me deixa um pouco desconfortável: essas são as duas etapas mais “sensíveis” de todo o voo, acerca dessa afirmação, devo dizer que não se trata de misticismo bobo ou incredulidade técnica de minha parte, mas sim, de um pavor efervescente que atravessa minhas entranhas, o qual chamo de medo. Em momentos assim, sempre procuro anjos suportadores de causa, que são aquelas pessoas que não tem medo de voar, mas são solidárias ao seu temor e, ao invés de nivelar por baixo seus receios, oferecem um olhar de “Olha, vai ficar tudo bem. ”. Sorrateiramente, meu primeiro olhar de socorro foi direcionado para ele, que usava óculos de armação grossa, ajeitou-os rente aos olhos e iniciou uma leitura, tentei ler o título, mas sua mão gigante tomava toda a capa. Normalmente, os aviões trepidam segundos antes de sair do chão, respiro fundo para manter uma calma que não me pertence, afinal, quero fazer bonito para o Sr. Leitor compenetrado completamente à vontade durante uma decolagem turbulenta e, quem sabe, angariar outro sorriso.

Depois de alguns minutos, iniciou-se o serviço a bordo, o jantar vinha quentinho acompanhado de algumas bebidas, licores variados e chocolate de sobremesa. Eu não tenho preconceito algum com sobremesas, no entanto, defendo que poderia ser qualquer outra sobremesa, mas não, afinal, tinha de ser chocolate, afinal chocolate é democrático, todos gostam de chocolate. Há poucas pessoas nesse mundo que não consomem essa iguaria escura e grudenta e uma dessas pessoas é essa quem vos fala. Para fugir de doações inúteis e também dos julgamentos do mundo acerca de minha aversão, costumo dizer que estou numa dieta específica ou que sou alérgica, porém, somente desta vez decidi aceitar, não sei porquê, devo ter querido parecer uma garota normal para o jovem que paquerava, considerando que, ao meu lado, ele já saboreava o seu, abarcando a embalagem com as duas mãos, ele fitava o doce como quem deseja desvendar um mapa do tesouro e, em seguida, o mordia bem devagar, tipo propaganda de margarina numa versão achocolatada.

Senti-me culpada e esquisita. Como posso repudiar um alimento tão doce e pegajoso que todos gostam? Aceitei o doce, mas, não o comi naquele momento e nem poderia, conheço a expressão incontrolável de meu rosto diante de algo que não gosto. O jovem galanteador ao meu lado não podia ser exposto à uma expressão dessas, ainda estávamos naquele jogo de olhares e minha careta repulsiva quebraria o clima. Olhávamo-nos durante todo o voo, volta e meia, interrompíamos nossas leituras e voltávamos segundos depois quando um notava o outro estava a lhe encarar. Em determinado ponto da viagem, adormeci coberta por livro, óculos e chocolate.

Despertei com o anúncio da comissária que dizia estarmos prestes a pousar, à minha esquerda, ele permanecia imerso em sua leitura, como se estivesse sentado no banco de praça de uma cidadezinha interiorana qualquer. O aviso de atar cintos foi desligado indicando que todos podiam se levantar, a bagunça que criei antes de dormir me impedia de levantar, removi tudo do meu colo e ajeitei a blusa, ao ficar ereta e tentar me virar, colidimos de frente um para o outro, ninguém balbuciou palavra alguma, mas olhávamo-nos atentos, o perfume dele fora suavizado pelas horas de voo, mas ainda estava lá, em notas amadeiradas adormecidas embaixo de sua pele morna. Era amor. E se não o fosse, era, de certo, algo minimamente interessante.

– Senhora? Senhora? – Interrompe-nos a comissária.

            Virei-me para ela.

– Tem alguma coisa na sua calça.

O chocolate caíra entre minhas pernas e derretera, enquanto eu dormia, por toda minha calça bege. O homem intrigante que, até aqui não se pronunciara, resolvera falar:

– Oh, isso é bem ruim.

Bem ruim? Que tipo de eufemismo é esse? Pensei comigo. Senti minha face queimar, tudo que eu precisava fazer era explicar que o meu pânico de voar não havia me levado às últimas consequências.

– “É chocolate! “ Justifiquei inutilmente. Ele não estava mais lá.

Enquanto a comissária separava alguns guardanapos para mim, enrolei meu terno na cintura para disfarçar o “desarranjo forjado a chocolate” e segui para o banheiro dentro da sala de desembarque, sem pudor, tirei a calça e a lavei na pia mesmo, em seguida, enxuguei-a no secador de mãos que havia lá. Vez ou outra, alguém entrava e me encarava com uma expressão indagadora, eu ignorava umas, cumprimentava outras, principalmente as que pareciam simpáticas à minha causa. Afinal, quem nunca teve sua calça bege manchada de chocolate em todo o bumbum durante um voo, que atire a primeira pedra!

Vesti-me com a roupa já limpa e seca e segui até a esteira de bagagens para esperar a minha mala. Existe um vão distante entre o carrossel depositador de malas e o cinturão onde as acessamos e, cada vez que uma mala caía, fazia um barulho estrondoso deixando aquela desagradável sensação de certeza de que a sua mala quebrou.

– Devia ter comido aquele chocolate, tinha licor ali dentro. Que desperdício! Digo, era chocolate, certo?

Aquela voz veio pairando no ar, seu corpo esguio fazia sombra cobrindo metade de meu rosto, indaguei feliz se não era a metade que acabara de corar. Eu fitava a esteira de bagagens, mas notei, de canto de olho, que ele sorria o mesmo sorriso largo de antes. A beleza do flerte se justifica na espera e, quando esta acaba, um pouco da magia também se vai. Flertar é expectativa intacta, é mistério que ambos querem desvendar sem demandar pressa alguma. Encarei-o. Se por fruto do acaso ou não, endossados ou não por essa atmosfera inebriante, devolvi o sorriso.

– Sim, era. – Respondi, faceira.

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