Viajar Para Dentro

Realizar uma viagem solo nos conduz para dentro de nós mesmos, a medida em que nos propomos o desafio de explorar nosso eu interior. Há uma série desses eu’s dentro de cada indivíduo, resultado enfadonho de personalidades que nos foram vestidas através do viés alheio. Somos, acima de tudo, seres sociais, se formos isolados, estaremos fadados ao frio e à morte solitária, criamos mecanismos comportamentais para não desagradar o outro e, assim, evitar constrangimentos que julgamos desnecessários. O que não compreendemos, em grande medida, é a função crucial de tais constrangimentos, assumimos que é mais fácil evitar o conflito em prol de um bem-estar social raso e nos esquecemos do profundo amadurecimento gerado quando colidimos em nossas crenças, preferimos o conforto volátil da sociabilidade à criação de laços mais perenes. O “sim” que doamos aos outros é o “não” que proferimos a nós mesmos, uma negação ininterrupta e perigosa.

Sartre, um grande filósofo francês, nos ensinou certa vez que “se você sente solidão quando a sós, está em má companhia. “ É preciso desfrutar da própria presença para não estar solitário neste mundo, o homem que conhece a si mesmo não repudia seu semelhante, pelo contrário, o reconhece. Há um risco iminente na jornada do autoconhecimento, revelamo-nos ao descamar as folhas graúdas de personalidade atribuídas pelo mundo, recusar tais afirmações acerca de nosso “eu” é terreno vulcânico, conflito exaustivo e tedioso, porém, de abundante recompensa.

Viajar solo é, antes de mais nada, comparecer a um encontro marcado consigo mesmo, é estabelecer algumas conexões e encerrar outras, é caminhar em terra natal e sentir-se estrangeiro, é desconstruir-se para edificar-se outra vez. Cantar uma música nova, degustar algo que jamais lhe agradou, escolher praia ou livro e ficar com os dois, perceber o próprio cheiro e sentir-se em casa.

Quando rejeitamos a nós mesmos, o outro nos causa estranheza, somos devorados pela ansiedade do não-entendimento e, todos os sentimentos que enxergamos no outro, nada mais são do que reflexos tortuosos de nossas próprias frustrações. Enxergar-se dói, mas, igualmente liberta. Liberta porque as folhas graúdas de personalidades alheias caem a medida em que fazemos escolhas e, ao delimitarmos o espaço do outro e o espaço do “eu”, escolhemos nós mesmos.

Foi lá na Austrália, numa dessas viagens de começo de ano, onde recrutamos alguns amigos para tirar boas fotos a distância e discutir banalidades no bar mais próximo do hotel no final da noite. Foi lá que flertei comigo mesma pela primeira vez, descobri que gosto de bibliotecas e de música ao ar livre, que a espontaneidade produz mais adrenalina que saltar de paraquedas e que perder-se no meio do caminho é parte vital de qualquer viagem. Carregue sempre um mapa contigo, no entanto, aceite a ajuda de uma simpática estranha que, além de falar a sua língua, te indicará o caminho daquela catedral bonita, porque está no trajeto dela, e ainda tirará excelentes fotos à distância.

Foi lá que aprendi que a pressa só importa se chover na praia e você estiver sem guarda-sol – ou não – e que a angústia posta em efemeridades resultará em nada além de uma gastrite, dar importância para situações que mereçam tem o seu valor, mas relativizar alguns eventos corriqueiros da vida é sábio.

Aconteceu numa biblioteca no centro de Melbourne, eu estava com o mapa numa mão e uma maça noutra, aquela tentativa ingênua de também segurar uma câmera fotográfica e tirar um iogurte de dentro da mochila enquanto caminhava, trombei uma escadaria cumprida no meio de uma praça, olhei para cima e notei o letreiro vistoso que dizia State Library of Victoria, mordisquei a maça suculenta que deixou escorrer um sumo gelado no canto da minha boca, aparei-o no indicador, ajeitei os óculos no rosto e segui escadaria adentro.

Três andares compunham a estrutura da biblioteca e cada um acomodava uma feira literária diferente, cenários de guerra em preto e branco adornavam o corredor do primeiro andar, pinturas rupestres coloridas decoravam o corredor do segundo, enquanto no terceiro andar, quadros com frases de pensadores do Século XVIII imprimiam um ar sofisticado e intimista. Do último andar, estudantes inertes mergulhados em livros e cadernos, enquanto uma senhora caminhava pelos corredores tomando nota em um caderninho dos livros que ia pondo nas prateleiras, o guarda na entrada do corredor principal folheava um mapa e dava orientações a um casal jovem de bermudas e óculos de sol, a moça gesticulou alguma coisa e todos riram, a vida tem nuances mesmo em redutos onde o silêncio é senhor hierárquico.

Desci para o andar térreo onde o barulho já havia cessado, sentei num banco de mármore que ficava em frente à estatua de um deus grego cujo nome desconheço e acomodei a mochila, era a primeira vez que eu ficava a sós com a minha própria voz, iniciei uma conversa com os meus pensamentos, estranhei a princípio, mas prossegui, a sonoridade nasalada de minha voz me fez rir, jamais notara o modo como pronuncio a letra R em verbos no infinito – sonhar, viver, sorrir – e como a acústica dessas palavras parece dissolver-se no ar. Folhas graúdas de personalidade alheia dissolvidas, era hora de saber: o que eu sou? Eu me basto?

Foi lá, submersa na imensidade do conhecimento gratuito dos livros, que descobri uma verdade benevolente: me basto, mas nem sempre caibo em mim; me amo, mas nem sempre volto para mim. Descobrir-se é diplomatizar nossos monstros interiores, barganhar essa fatia generosa de vida que compartilhamos uns com os outros diariamente, é ser conhecedor de nossas peculiaridades dentro do censo-comum, é amar-se incondicionalmente porque não há escolha pois, ninguém o fará por nós. É preferível morrer de amar-se que viver beirando desconhecer-se, deitar-se todos os dias tendo escolhido a si próprio que vegetar em vida respirando qualquer ar.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.