Memórias de Meretriz

Entramos em um desses milhares de Buldog Shop espalhados por Amsterdam, o lugar era quente e aconchegante, estávamos à meia luz e era possível desenhar o contorno das sombras das pessoas sentadas no balcão comprido, o barulho da rua fora abafado pelas conversas paralelas no bar. Alguns rapazes brindavam noutra mesa erguendo seus copos e cantarolando uma música que eu não entendia – assumi que fosse holandês pela sonoridade – eles estavam exaltados, cantavam e brindavam várias vezes seguidas, no canto direito à beira de uma mesa redonda, um casal se beijava com ardor no mesmo ritmo da música ambiente, um jazz de sete ou oito notas.

Fui ao balcão pedir uma bebida, o garçom e eu gritávamos para estabelecer uma conversa quando ele entendeu que tudo o que eu precisava era de um chope escuro no copo para viagem, tradicionalmente, os turistas aqui pegam suas bebidas e passeiam entre pub’s em toda Red Light Street, uma rua famosa na Holanda e conhecida no resto do mundo por exibir meretrizes em vitrines ao ar livre ao longo da rua. Desconheço como tal prática se iniciou, porém tornou-se ponto turístico obrigatório para os aqueles que vem desfrutar das peculiaridades locais.

É proibido tirar fotos das moças durante o labor, os turistas podem observar enquanto passeiam, entrar em um pub qualquer e pedir bebidas, brindar com os colegas de viagem, tirar fotos dentro do bar e publicar em redes sociais. Na rua, há uma aura histérica, as meretrizes dançam em câmera lenta de forma sedutora e acenam para o público, avisos de proibido tocar na vitrine estão em todas as cabines indicando que alguém deve ter batido no vidro teimosamente, como crianças que cutucam com o dedo indicador o vidro espesso do aquário assustando os peixes muito embora tenham sido avisados para não os perturbar.

Uma dança de acasalar tocava silenciosamente na mente das pessoas, numa sincronia exata que fluía dos quadris dançantes das meretrizes até o acenar nervoso de turistas fascinados, o ruído dessa canção abafada pela espessura das vitrines prestes a explodir, como em um teatro amplo cujo som está contido pela porta de madeira maciça que separa o auditório do hall de entrada. Aqui e lá, portas e vitrines enrijecem sua estrutura para conter a sinfonia frenética do pudor prestes a jorrar, agora algumas vitrines se camuflam frente à cortina de tecido escuro, o som a invadir os tímpanos indicando que a grande festa começou.

Os que ficavam do lado de fora das vitrines caminhavam por toda Red Light Street, observando as diferenças entres as vitrines, comentando com os seus e fazendo apostas para ver quem violaria as regras sobre fotografias. A brincadeira no grupo onde eu estava era escolher uma vitrine e pensar numa história para uma meretriz, parecia divertido então todos aceitaram em meio a risadas e, aquele que contasse a história mais interessante, não pagaria a rodada de bebidas daquela noite.

Dei passos ligeiros a procura de uma vitrine para mim e pensei que queria uma bastante colorida meio anos 20 para inspirar a minha história, quatro blocos depois e lá estava a minha vitrine da sorte: o cenário tinha uma combinação de cores quentes, uma cadeira branca que mal acomodava um casaco de veludo vermelho que tocava o chão com a ponta de um dos braços, no canto direito havia uma penteadeira também branca com duas gavetas cujos puxadores reluzentes lembravam pequenos rubis, um colar perolado caído entre um porta-joias revestido de veludo marrom e uma escova redonda para cabelos. Dedos brancos e curtos pegaram o cabo da escova, conduzindo-a à cabeça redonda povoada de um cabelo escuro muito brilhante que cintilava ao refletir a luz ambiente, sua testa tinha uma superfície dura e opaca contrastando com os pelos espessos e escovados das sobrancelhas que pretas como petróleo e arqueadas como a expressão momentânea de vitória do diabo, seu olhar me era triste e tedioso e repuxava levemente para baixo do canto esquerdo quando ela esboçou meio sorriso. Seu nome era Justine.

Apesar do nome francês, ela viera de família estrangeira e fora criada por seus patrões que a consideravam como da família, Justine pensou que seria tratada como tal após a morte prematura de sua mãe, no entanto, detalhes assombrosos da vida urbana a ensinaram que aqueles que se importam com alguém, mais farão do que dirão, e os pais postiços de Justine eram prolixos em demasia. Ela quis estudar quando adolescente assim como seu pai de sangue o fizera, muito embora suas lembranças fossem fragmentos soltos de uma infância difícil, ela jamais esquecera das palavras dele: “Não permita que ninguém lhe diga que você não é capaz disso ou daquilo. “ Justine carregava uma força e um orgulho natos por ainda se lembrar dos conselhos dele enquanto sua mãe sempre se lamuriava por ele ter sido sonhador demais.

Ele morrera em um acidente de carro quando Justine tinha dez anos e deixou uma singela herança que, de acordo com a sua vontade, era para pagar os estudos da menina, mas sua mãe tinha planos diferentes para aquele dinheiro. “Onde já se viu morrer e me deixar com uma mão na frente e a outra atrás com uma criança para cuidar? Primeiro é comida na mesa, depois é estudo, se der.” E assim foi-se empurrando para debaixo do tapete as aspirações da pequena órfã. Quando Justine perdera também sua mãe para uma doença do rim, crescera na casa dos patrões e acreditou por bastante tempo que ingressara numa escola especial para órfãos, o que se revelou mais tarde como um depósito de crianças desamparadas, os patrões inicialmente iam visita-la duas vezes por semana, mas a rotina ficou apertada e eles tiveram que reduzir para uma visita por mês até que não apareceram mais.

Ao completar a maioridade, Justine conseguiu trabalho como garçonete em um restaurante italiano, ela achava estranho a forma como as pessoas se comportavam diante do cheiro da comida, aprendera a apreciar cada garfada e a comer no ritmo de sua respiração mais lenta, pois lera certa vez no jornal que mastigar a comida devagar era bom para a saúde do corpo e da mente, ela tinha esse hábito de seguir com rigor certos conselhos, acreditava que deveria estar pronta, em boas condições físicas e mentais, para quando a oportunidade perfeita surgisse em sua vida. Enquanto isso, ela atendia as mesas que lhe eram dadas e recebia propostas indecentes de clientes grosseiros, decidiu conversar com o seu chefe para pedir providências, este por sua vez, explicou-lhe a importância de ela ser prestativa com os clientes fixos do lugar e que isso lhe renderia boas gorjetas, contanto que ela repassasse as devidas taxas locais ao patrão, não tardou e ela acumulara uma dívida maior que seus ganhos e teve que conciliar seu trabalho no restaurante com uma vida noturna destinada ao entretenimento adulto.

Em meio sorriso a repuxar o canto esquerdo do olho para baixo, ela me viu como eu a via, minha curiosidade quase infantil a questionar-lhe o porquê de tantas idas e vindas, o porquê de tantas voltas para longe do destino que ela tanto queria. Senti um pesar imenso a inundar-me o peito, tragando-me, ora sim ora não, para dentro de meus próprios questionamentos. Por que ela não fugiu do patrão explorador? Por que não pediu ajuda? Por que continuava ali cercada de olhares imorais, alheios à sua história? Por que eu não gritei para aqueles a minha volta? Poderia ter chamado a atenção de pessoas que a ajudariam a escrever uma nova história, sem falso moralismo, sem lembranças fragmentadas de um passado infeliz, sem promessas vazias de pessoas que não se importam.

– Clara?! Clara?! Mew, você tá surda?!

Era a Eloísa me puxando pelo casaco de lã que ganhei da minha mãe no último natal. “Precisamos ir, a Marcinha passou da conta, vai vomitar o jantar inteiro aqui no meio da rua. Moh vexame “ – disse entre risos.

Justine agora olhava para o lado oposto, sorria um sorriso torto enquanto mexia os braços no ar numa dança de acasalar seguindo a jogatina de outras meretrizes. Quis me despedir, dizer-lhe que sentia muito, mas principalmente, dizer-lhe apenas que sentia.  Sentia profundo e irritadiço incômodo em meu peito a clamar uma coragem vã e falaciosa, almejei proferir palavras de esperança, de protesto e de cumplicidade, mas acovardei-me no âmbito do meu ser, na beirada de meus extremos e na apropriação de meus limites comuns. Eu, que pouco sou heroína de mim mesma, não pude salvar Justine tampouco o resto do mundo.

 

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