À Margem da Própria Espiritualidade

“O bem que você faz hoje
Pode ser esquecido amanhã…
Faça o bem assim mesmo.
Veja que, no final das contas, é entre você e DEUS.
Nunca foi entre você e as outras pessoas.”

– Madre Teresa de Calcutá

Era uma viagem a trabalho quando estive no Qatar pela primeira vez em 2013 para um curso de uma semana, após o quarto dia lembro-me de estar entediada por não ter visitado as mesquitas e de não ter ido ao mercado local de especiarias, comumente chamado de souk, para conhecer um pouco da cultura local. Era fevereiro e fazia frio de manhã, desci ao hall do hotel para um café rápido antes do curso – demoro a acostumar com a diferença de fuso horário – e peguei um taxi para a Torre I da empresa para a qual eu trabalhava, o taxista, um indiano trajando uma camisa de amarelo bem alegre,  perguntou se podia ligar o rádio, não me opus e fomos todo o trajeto ouvindo uma musica árabe que eu não entendia, ao contrário de Arjun – o taxista cantante – que acompanhava a melodia em seus variados tons.

Doha, capital do Qatar, cidade em franca e acelerada construção, trata-se de um grande canteiro de obras a céu aberto, os recém-construídos prédios arranha-céus contrastam com os esqueletos metálicos de novos prédios porvir. Carros luxuosos disputam a espaço nas ruas, enquanto homens vestidos em seus dishdash’s exibem seus rolex’s de um lado da rua e algumas senhoras vestidas com suas abayas e bolsas Prada conversam noutro ponto daquele lugar, imprimindo à cidade ares de um Oriente ocidentalizado. Em meio à essa arquitetura moderna, chegou aos meus ouvidos um cântico homogêneo vindo de algum outro lugar, Arjun parara de cantarolar naquele instante e perguntei a ele do que se tratava, ele disse que o som vinha da Mesquita de Abu Bakr Al Siddiq e que aquela era a hora da oração dos mulçumanos, onde todos faziam silêncio em respeito as preces que estavam sendo feitas, perguntei o quão próximos estávamos da mesquita e ele respondeu que estávamos perto. Chequei no relógio, eu já estava atrasada pelo menos cinco minutos numa conta rápida, mas, uma parada no caminho se fez necessária em meu coração curioso.

A mesquita de Abu Bakr Al Siddiq mais parece um templo antigo de reis afortunados, o piso de mármore muito limpo e reluzente combinava com a decoração do prédio e fazia ecoar o vento pelas frestas das largas colunas, havia uma singela escadaria que dava acesso à parte interna da mesquita, Arjun sugeriu que eu cobrisse a cabeça com um lenço ou algo parecido, me explicou que tal gesto significava respeito ao lugar, mas que não era obrigatório para turistas, cumpri sua orientação mesmo julgando-a duvidosa e adentrei o recinto. O grande salão que antecipa o interior da mesquita possui alguns espaços abertos e bem espaçosos à esquerda, à minha direita paredes enormes de vidro compunham a estrutura interna da mesquita e pensei naquele lugar povoado por gente cheia de fé e esse pensamento me trouxe alguma alegria.

 Apenas o ecoar constante do vento rondava aquele lugar, quando a oração cessou fez-se um silêncio profundo, daqueles que não ouvimos na cidade grande, lembrei-me de uma passagem de Madre Teresa, do meu entendimento prematuro sobre religiosidade e de como essas premissas estão intrínsecas naquilo que sou. A grande verdade é que nenhuma verdade é absoluta, são todas mutáveis e essa verdade me dói quando atinge minha fome por respostas, significar as coisas nos mantém vivos nesse planeta e norteia as relações que criamos com as pessoas. Para Madre Teresa, há um acertar de contas entre o homem e Deus, uma relação mútua de afazeres para tornar esse mundo melhor e, quem sabe, multiplicar amor em alguma medida, talvez haja uma versão melhor de mundo do que essa que vivemos todos os dias, para isso, talvez tenhamos que abdicar da nulidade de nossas responsabilidades, talvez precisemos pagar o preço de nossas decisões e aprender a conviver com isso, talvez nos descubramos mais “deus” e menos “homem” no sentido afável da palavra. Porque talvez haja mais Deus no compreender que no julgar. No perdoar que no reprimir.

Acreditar é busca implacável por algo que não controlamos, é refúgio aquecido e impermeável contra as dores do mundo, é entendimento raso daquilo que damos sentido. A vida tem o sentido que damos, o tamanho que construímos e o valor que doamos. Veja que, no final das contas, é sobre você e si mesmo, é sobre se importar ou não, é sobre fazer escolhas e pensar no outro, é sobre respeitar o outro, incondicionalmente, se assim o puder, é sobre acreditar naquilo que lhe traz paz. Velejei por meus pensamentos cerca de dez segundos, tempo razoável para uma reflexão, para um aperto de mãos num acordo de paz, para ensaiar um eu te amo e quem sabe um abraço, para pedir um café e conversar com aquele amigo de longa data por horas a fio ou para olhar nos olhos de um estranho na rua e desejar-lhe bom dia.

One thought on “À Margem da Própria Espiritualidade

  1. Muito feliz em rever vc, depois de tanto tempo! Muito orgulhosa de ler textos tão lindos e tão cheios de vida! Me senti viajando junto contigo, em cada lugar e em cada situação. Que seu caminho seja de muita felicidade e sucesso!

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