Helô

Depois de caminhar algumas quadras pelas largas ruas de West Village, ela avista o parque repleto de gente diferente que veste roupa de frio e toma sorvete. Que a temperatura do sorvete diminui até chegar à garganta sem provocar uma gripe ela sabe, o que Helô não compreende é o fato das pessoas escolherem bebidas geladas que intensificam o frio ao invés de combate-lo, inflam-lhe os pulmões de tédio certos tipos de gente e esse primeiro tipo casa bem com o tipo que liga o ar condicionado em dezoito graus dentro do quarto de hotel e vai dormir encasulado num cobertor felpudo. Não se trata da não-economia, não lhe consome o sono o mau uso da logística, o que a faz bufar feito um boi marrento é a falta de sentido em certos tipos de decisão, fora ensinada a vida inteira a interferir na decisão dos outros da mesma forma que sempre interferiram nas suas. Justiça é moeda de troca na terra onde Helô habita.

Ela passeia entre pessoas alegres, suas meia-nudezes de verão e sorrisos encorajados com cerveja barata, ela gira a cabeça deliberadamente em protesto inútil, pré-julgando os que se fazem de comum em tribos estrangeiras, se misturando para parecer diferente e, ao passo em que isso acontece, se diluem buscando uma individualidade qualquer, e em nome de quê? De nada. Recorda-se ainda na infância quando sua mãe lhe dissera que as pessoas fingem ser o que não são e o fazem graças a um pacto social qualquer, Helô só finge porque gosta do pacto que escolheu para si e para aqueles a sua volta, sente-se segura dessa forma, aprecia uma rotina beirando a mesmice afinal, por mais que soe clichê, a prática leva à perfeição, esse mimo quase inatingível que adotou como seu capricho predileto.

Seu terapeuta recomendou-lhe férias, disse para variar a rotina e abandonar um pouco a mania de perfeição que a consumia, afirmou ainda que mudar de ares lhe faria bem e assim o fez Helô, aceitando os conselhos de seu médico porque não lhe cabia ser o tipo de pessoa que recusa opiniões alheias, ela acha de extremo mau gosto gente inflexível que posa de herói moderno. Ela pode não ser heroína, mas jamais disse sê-lo para quem quer que fosse. É transparente como uma folha untada em óleo: possível de identificar, mas nunca de definir. Passos apressados a levam ao oásis de todo amante da leitura: uma árvore acolhedora embaixo de uma vasta sombra. Ela lê para se esvaziar enquanto os demais leem para se preencher. Quantas versões dela mesma foram extraídas da leitura de um livro? Perdeu as contas, mas continuará a faze-lo até esquecer de si.

O tronco talhado em curvas contínuas parece uma colcha natural perfeita para suas costas que, nesse momento, estão a receber ondas de calor harmônicas apesar do vento frio, desliza o dorso em toda sua extensão até acomodar-se por inteira em posição horizontal, em sua mente acelerada, ela já percorre as páginas do capítulo seis que estão porvir, perto do clímax do romance – mal pode esperar – e lembra-se de alcançar os óculos na bolsa com a mão esquerda até seu corpo cessar a queda livre. Eis que lhe atingem não uma, mas duas, duas frestas de luz a cegar seus pequenos e arredondados olhos castanhos, não lhe deixando sequer um olho livre para procurar outra árvore boa. Será tão difícil assim conseguir uma acomodação confortável numa tarde ensolarada na grande metrópole? Achou que pudesse escolher, logo de cara, um lugar aconchegante para chamá-lo de seu? Nananinanão! Vá procurar sua perfeição insossa noutro canto que aqui é lugar de gente em transformação. – As vozes lhe dizem que ela não pertence a este lugar, lutou tanto para ser perfeita que não cabe mais nesse mundo de mutações gratuitas. Helô não se reconhece mais, porque já tentou muito refletir os outros – dispersa-se. Ela troca os óculos de leitura por óculos de sol, conecta o fone aos ouvidos e escolhe uma bossa nova na playlist, se não pode ser Guimarães Rosa, ela vai de Tom Jobim mesmo. A vida é espelho oblíquo a refletir seus contrastes.

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