Nova Iorque Feita de Gente e Café

As pessoas que passam aqui na Gregory’s não têm pressa, a cafeteria fica na esquina da movimentada Sixth Ave e, com uma atmosfera cosmopolita que se insinua através do vidro, nos convida para um café mais demorado. Abro a porta e o cheiro suave do grão torrado me cumprimenta com um bom dia. Procuro uma mesa de canto, dessas destinadas para gente que gosta de olhar a rua, há uma mesa quadrada de madeira escura e sobre dela, a luz amarela de uma luminária arredondada que não faz sombra porque há muitos raios de sol dançando juntos aqui dentro. Um café puro, por favor – pois o dia acaba de começar. Acomodo minha mochila ao pé da cadeira e abro o computador e, ao acessar o meu site, uma tela de atualizações trava minha página de edição e tenho de esperar alguns minutos para começar. Aqui dentro os raios de sol festejam tímidos, mas lá fora os arranha-céus são o limite.

Percebo um homem com olhos comprimidos pela luz cruzar a Sixth Ave com a West 31st street, ele corre para alcançar o sinal ainda aberto para pedestres e abraça um moço de boina vermelha que o espera na calçada do outro lado da rua, eles falam e riem entre si. Passa por eles uma mulher gorda de pescoço enrolado em um cachecol rosa volumoso, ela segura firme o braço da menor das duas crianças a acompanham, a criança maior puxa e repuxa a manga do casaco insistentemente, ela vira-se gritando e lhe entrega o donut. O dia passa de forma diferente para cada um.

Enquanto isso, um outro rapaz de barba ruiva e mochila nas costas caminha saltitando os passos para equilibrar a vultosa mochila. Deve estar voltando de uma expedição nos Andes – arrisco. O vento forte denunciado pelo balançar de seus cabelos invade-lhe o peito abrindo a jaqueta marrom enquanto o sol abraça seu corpo. Ele sorri. Deve gostar de dias ensolarados. Volto os olhos para o computador e dedilho, impaciente, sua superfície enquanto espero o término da atualização.

Aqui dentro, chama a minha atenção um homem alto de cabelos grisalhos e expressão calma, meus olhos seguem o abrir e fechar constante de portas em modo automático, então, nos olhamos, cumprimentamo-nos com um meio sorriso e acenar de cabeças – como o fazem cavalheiros medievais – e então ele vai embora. Os estranhos se falam na metrópole e também se ignoram, sintomas agudos de individualidade crônica que receio adquirir um dia, mas não será hoje. Hoje observo e absorvo todos eles, contaminados por metropolefagia. Ainda não inventaram uma cura, há quem não deseje uma cura, receio que procura-la seja remédio paliativo que não deve ser descontinuado jamais.

Há dez etapas em uma atualização de software que duram em média dez minutos cada uma, diz a mensagem na tela e, enquanto isso, um jovem usando óculos de leitura e trajando jeans num pulôver azul-marinho está a caminho da saída. Ele hesita. Abaixa-se e recolhe um papel amassado do chão jogando-o no lixo. Ele empurra a pesada porta com o peito, pois carrega café e alguns livros até enfim alcançar a rua e alcança também uma caixa de papelão vazia caída a sua frente, ele cambaleia tentando equilibrar livros e café, seu corpo pende para a esquerda e ele mantem o café apoiado quando uma mulher ampara a pequena pilha de livros com as mãos. Ele agradece e ela lhe entrega um largo sorriso.

Aqui no calor confortável com sabor de café, um casal de coreanos deixa o lugar, o rapaz a abraça dizendo-lhe algo ao pé do ouvido, ela ri e embaraça os cabelos negros e curtos. À porta, esbarram numa adolescente de cabelos castanhos e cordialmente dão-lhe passagem para entrar antes que eles cruzem a saída, ela agradece desejando-lhes bom dia, a jovem atende o celular e inicia a conversa com um alto e enérgico “Oi, querido! “. Deve ser efeito contagioso dessa cortesia gratuita que doamos ao longo do dia, penso no quão sortudos somos graças as portas manuais dos lugares públicos, que nos possibilitam trocas ligeiras de afeto e desejos cordiais de bom dia em meio à afobação da cidade grande. Status de atualização: etapa dois de dez concluída com sucesso. Vamos lá.

À primeira vista, Nova Iorque é um desses amores inconsequentes, que tragamos por cada poro aberto de nosso corpo para não nos esquecermos dele. Os olhares apressados correm as avenidas durante o dia sem notar a cidade, mas à noite a cidade se levanta e suas luzes ofuscam até o mais destemido dos homens, os transeuntes caminham noutro ritmo e as luzes os conduzem para dentro de si. Amo a condição do dia, do perceber o outro na cafeteria ou na estação de metrô, os raios de sol estão sempre a reger essa sinfonia. Na primavera os ânimos se exaltam e os estranhos se arriscam a romper essa linha tênue de individualidade para ter contato com o outro, mesmo que por alguns segundos. Um barulho interrompe meus pensamentos, uma mochila volumosa acomoda-se ao meu lado.

– Se importa de olhar para mim enquanto compro um café? – Era o jovem ruivo que saltitara até aqui.

– Vai lá, eu olho para você. – Respondo.

– Obrigado. E ah, desculpe ter notado, mas sabia que pode controlar as atualizações do seu computador de modo que elas sejam feitas uma vez por mês apenas?

– Está aí uma boa ideia. Como não pensei nisso antes? Obrigada.

Risos.

Atualização finalizada. Tela de edição pronta. O rapaz vai pedir seu café enquanto degusto o meu ainda quente e escrevo minhas impressões acerca das pessoas que passam na rua, suas gentilezas gratuitas e ensinamentos. Noto em mim sintomas de metropolefagia e rascunho palavras no caderno para seguir em busca da cura.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.